A onda de violência que atinge Florianópolis e outras 16 cidades de Santa Catarina há mais de uma semana fez com que a rede hoteleira do Estado aumentasse o investimento em segurança privada e ficasse receosa pelas reservas já feitas para Natal e Ano Novo.
De acordo com o presidente da Associação Brasileira de Hotéis em Santa Catarina, Samuel Fernando, no feriadão que termina nesta terça (20) a rede não sentiu diminuição do fluxo, uma vez que o ápice dos ataques, de quarta (14) para quinta (15), foi praticamente no início da folga prolongada.
“Nestes dias não houve cancelamento de reservas, mas queremos esta semana nos reunir com representantes do governo e saber o que, exatamente, está sendo feito para que o setor não saia prejudicado nos feriados de Natal e Ano-Novo que vêm aí, por exemplo. É nessas datas que as ações de agora terão reflexo”, disse, para completar: “Da nossa parte, aumentamos a vigilância terceirizada para reforçar a segurança. Mas isso não pode se estender mais”, afirmou Fernando.
Dono de um hotel na Praia dos Ingleses, norte de Florianópolis, ele disse ter contratado mais seis vigilantes --até semana passada, afirmou, era apenas um.
Comerciantes reclamam de insegurança antes de ataques
Apesar da onda de violência, porém, comerciantes e mesmo turistas de áreas baladas como a Praia dos Ingleses, Canasvieiras e Jurerê Internacional --redutos principalmente de paulistas e, na chamada alta temporada, também de argentinos e uruguaios --dizem que a movimentação de turistas não sofreu alterações.
Por outro lado, alguns comerciantes relataram que as praias cheias não significam sensação de normalidade ou de segurança para eles próprios –que, nas últimas quinta (15) e sexta (16), por exemplo, em pleno início de feriadão, tiveram de fechar bares e restaurantes por volta das 22h por receio de um toque de recolher cuja existência a Polícia Civil negue.
A reportagem do UOL conversou com turistas e comerciantes dessas três localidades nesse fim de semana e constatou que a queixa de quem trabalha em algumas dessas áreas vem de antes mesmo da onda recente de ataques.
“Fui assaltado três vezes em um período de três meses no ano passado. Dá uma sensação de desânimo. Então, essa onda de violência não vem de agora –e se da forma como estão agindo nos últimos dias eles [criminosos] querem chamar a atenção do sistema, precisam ver que o mais prejudicado, na verdade, acaba sendo o povo”, disse o comerciante Rangel Fernando, 34, dono de um restaurante à beira da praia dos Ingleses. “Tá feia a coisa, ainda que o movimento não tenha caído –mas confesso que esperava mais gente, até”, disse, ele que mora nas imediações.
Funcionária de uma loja de artigos de praia ali na vizinhança, Íris Richter, 44, comentou que o o medo é da volta para casa. “Na semana passada, fechamos bem mais cedo porque havia uma ordem de não ficar abertos à noite”, afirmou.
Gerente de uma loja de joias na mesma região, Juliana Batista, 29, declarou que se sente segura no ambiente em que trabalha –“temos um segurança 24 horas do lado de fora”, justificou --, mas que ficou em alerta para o retorno do expediente. “Esses dias entrei em um ônibus do transporte coletivo que levava dois policiais militares. Fiquei com medo de o ônibus ser atacado justamente por isso, mas não tinha opção”, lembra.
Champanhe e “redoma” em Jurerê Internacional
Já em Jurerê Internacional, reduto de estrangeiros e de brasileiros de classe média alta, a música eletrônica de uma boate às 15h dava a deixa de que, por ali, o clima não era exatamente de apreensão por conta da violência dos últimos dias.
Com mansões ao estilo americano, sem muros ou portões, mas com um forte esquema de segurança particular, o bairro praticamente não é rota dos ônibus de transporte coletivo que, nos vizinhos Canasvieiras e Ingleses, têm passado com escolta de carros da PM. “Até vimos pelo jornal que havia uns ataques em Florianópolis, mas, para quem mora em São Paulo, isso não é exatamente preocupante”, afirmou o engenheiro português Horácio Manoel, 47, na capital catarinense com a mulher e os filhos.
Dono de uma banca de aluguel de cadeiras de praia, o comerciante Mauri Coutinho, 45, disse também não ter sentido diferença no volume de clientes. “Eu até me preocupo com o que se passa, parece o que acontece em São Paulo, mas para nós, na praia, não fez diferença alguma”, relatou.
“Está tudo aparentemente bem calmo, essa onda não afetou diretamente o pessoal daqui. Mas é um alerta para a necessidade de distribuição de renda e de investimento em educação”, avaliou Audênia Osterkamp, 40, dona de uma banca de locação de equipamentos náuticos, em Jurerê Interacional, mas moradora do Bairro dos Ingleses e de uma área próxima a um dos ataques a ônibus da semana passada.
Morador de um hotel de Jurerê, o produtor rural Ronaldo Castilho, 51, disse acreditar em "retaliação" dos bandidos em relação à polícia e resumiu: “Sempre foi assim. É um problema de incompetência”, considerou.
Perto dali, com taças de champanhe, uma família de Blumenau (SC) disse não achar que a onda de violência seja algo que vá durar. “Querem acabar com nosso turismo. Se for para deixar de vir argentino para cá, pois eles estão mesmo pobres, em crise, tudo bem”, declarou a designer Mel Netto, 40.
Movimento na praia dos Ingleses, no fim de semana, na região norte de Florianópolis. Comerciantes relatam que a onda de ataques os deixou com medo, ainda que o fluxo de turistas no feriadão não tenha diminuído
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