Desocupado por ordem judicial, prédio na Zona Sul do Recife tem ex-moradores que vivem atualmente em abrigo, favela e até mesmo dentro de veículo.
Um mês depois do fim do prazo judicial para que os moradores do Holiday desocupassem o edifício, o endereço do síndico do prédio, na Zona Sul do Recife, não mudou. José Rufino Neto permanece na Rua Salgueiro, no bairro de Boa Viagem, mas passou a morar dentro do próprio carro, estacionado em frente à sua casa. Assim como ele, outros moradores tiveram que buscar alternativas diante da ordem da Justiça, mas apesar das diferentes soluções, há algo unânime entre todos: a vontade de voltar.
Riscos estruturais, inadimplência do condomínio e ligações elétricas clandestinas são recorrentes no Holiday e representam problemas que se arrastam desde os anos 1990. Depois de um problema elétrico em março deste ano, a falta de segurança foi o motivo alegado pela Companhia Energética de Pernambuco (Celpe) para não religar o fornecimento elétrico. A Defesa Civil também constatou uma série de riscos, levando os residentes a saírem do local.
Depois da interdição, a chave do edifício foi devolvida ao condomínio no dia 12 de abril, mas com restrições. "O condomínio precisa informar quem são as pessoas que vão entrar para fazer avaliações e serviços técnicos. A Justiça não quer obstruir, queremos facilitar, mas é preciso que tenhamos o mínimo de controle e organização", afirma o juiz Luiz Rocha, da 7ª Vara da Fazenda Pública da Capital, responsável pela ordem que determinou a saída dos moradores.
De dia, Rufino Neto busca arrecadar fundos para chegar à meta de R$ 650 mil para a reforma do edifício e montar uma equipe de voluntários para atuar na obra do Holiday. À noite, o síndico dorme no próprio carro, estacionado em frente ao prédio.
Amigos ajudam ao levar comida, disponibilizar o banheiro da própria casa, guardar os eletrodomésticos que sobraram depois da retirada de móveis feita pela Prefeitura do Recife. “As roupas, outras coisas mais pessoais estão aqui no carro, mas tive que jogar meus móveis fora porque não tinha onde colocar”, diz.
O que ficou no prédio de 17 andares e 476 apartamentos foi retirado pela Autarquia de Manutenção e Limpeza Urbana do Recife (Emlurb). Entre os dias 25 e 30 de março e 1º e 11 de abril, exceto aos domingos, o órgão fez a limpeza do prédio, recolhendo 139,8 toneladas de lixo e entulhos deixados para trás.
Para Rufino, permanecer em frente ao Holiday não foi uma escolha. “É uma necessidade. Eu não escolhi estar aqui, estou porque foi o que sobrou. Não vou para o depósito de pessoas”, diz, se recusando a cogitar a possibilidade de ir ao abrigo disponibilizado pela Prefeitura do Recife, no bairro de São José, no Centro.
Abrigo
No mesmo abrigo criticado por Rufino, o vendedor João Batista, 58 anos, e o desempregado Edmar Souza, 60, enxergaram a única solução nos primeiros dias longe de casa. Vizinhos no 15º andar do Holiday, os dois dividem, atualmente, o quarto 16 no espaço da Travessa do Gusmão, destinado à ajuda emergencial.
“Aqui eu tenho até mais do que as três refeições e um teto. Dentro do possível está bom, mas eu não posso dizer que está perfeito porque não é a minha casa”, diz o desempregado Edmar Souza.
Na cama ao lado está o comerciante João Batista, que garantia a renda vendendo protetor solar e bronzeador a poucos metros do Holiday, na praia de Boa Viagem. O imbróglio do Holiday e a distância do local de trabalho, no entanto, forçaram a parada nas vendas.
“Fazia 10 anos que eu morava lá. Era alugado, mas era a minha casa e era perto da praia. Eu tenho a esperança de voltar”, afirma.
Para Edmar, a situação é ainda mais delicada devido à burocracia na assistência social a ele e às outras quatro famílias do Holiday que passaram pelo abrigo. Devido a problemas de saúde, uma idosa foi transferida para uma casa especializada e outra família comunicou a mudança do abrigo para outro local.



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