Apresentadora nascida na Casa Verde revela que nunca considerou o corpo como a prioridade no carnaval: 'Você vai lutar por sua escola e o corpo vem junto'.
Lívia Andrade, 34 anos, é nascida e criada no bairro paulistano da Casa Verde, na Zona Norte, e desfila em escola de samba desde os 10 anos. Para ela, que é madrinha de bateria, mais importante do que mostrar o corpo na avenida é vestir um personagem e sempre inovar na fantasia. “Eu desfilo há mais de 20 anos e nunca levei o corpo como prioridade. O carnaval é minha prioridade, a minha diversão e meu compromisso com a escola. Eu procuro vir diferente, mais temática, mais caracterizada, mais personagem do que só o lance da beleza e ostentar uma bela fantasia. A cada ano que passa a gente procura se superar”, diz ela.
A Império de Casa Verde vai fazer uma crítica social na avenida este ano e terá a participação de Edi Rock, do grupo Racionais MC's. Veja a letra e ouça o samba.
“Esse samba é um dos mais bonitos que a Império já teve. Eu achei incrível a comparação do nosso momento político atual e essa comparação com o momento da Revolução Francesa e o musical Os Miseráveis. Tudo isso chamando o povo para a rua. Achei incrível e tem tudo a ver com o carnaval: essa manifestação única misturando diversão, informação e protesto. Veio para coroar esse momento que a gente está vivendo”, opina ela.
1) Como começou sua relação com a Império de Casa Verde?
Sou nascida e criada no bairro da Casa Verde e participo do carnaval desde os 10 anos. Antes disso eu ia até a avenida para ver as escolas de samba do bairro ensaiarem e aquilo me encantava. Achava tudo muito bonito, tudo muito mágico. Sempre me imaginei ali. Com 10 anos eu e uma vizinha conseguimos fantasias na ala das crianças. A parte difícil foi convencer a minha mãe a me deixar participar de uma escola de samba. Eu pentelhei tanto a minha mãe... Mesmo com a negação eu acabei indo para esse desfile. Fiquei horas lá. As crianças chegam antes, você fica com um crachazinho, tem um lanche com [refrigerante] Tubaína, a gente vai de ônibus com as monitoras. E mesmo chegando lá oito horas antes do desfile da escola eu achei tudo aquilo muito lindo e muito mágico. Quando você chega na avenida e vê naquelas luzes, aqueles carros maravilhosos... E tudo brilha, tudo acende, tudo se mexe. Aquilo é a Disneylândia de uma criança que nunca teve a oportunidade de viajar para fora do país e frequentar os parques. Eu me apaixonei. E a primeira sensação de cruzar a avenida naqueles holofotes marcou a minha vida e desde então eu nunca deixei de desfilar.
2) Como é a preparação para ter fôlego para cruzar a avenida? Qual é a pior coisa que pode acontecer na avenida?
A preparação para o desfile acontece nos ensaios de rua, de quadra e técnicos. A malhação não substitui os ensaios. É preciso ensaiar mesmo para aprender todas as paradinhas da bateria e a fazer o percurso da escola no dia. A pior coisa que pode acontecer na avenida é o sapato quebrar. Isso já aconteceu comigo. Perdi a sola das sandálias dos dois pés no início do desfile. Aí vira um sabão porque o acrílico com o piso do Sambódromo, que é pintado, fica liso. E ainda choveu no dia. Virou um sabão. Então foi muito difícil para mim. Eu caía e aí comecei a inventar uma coreografia fazendo de conta que aquilo fazia parte da minha coreografia porque toda hora eu estava ajoelhada no chão. Mas é muito ruim porque você não curte, é bem estressante, você fica preocupada o tempo todo. Todo o resto dá para dar um jeitinho, mas o sapato... Você não samba, não se diverte, não se locomove com tranquilidade.
3) É o sonho de toda mulher ser rainha de bateria?
Não sei se é o sonho de toda a mulher, mas para quem frequenta as escolas de samba, para quem é da comunidade, a bateria é o coração da escola. É o lugar mais animado, é onde tem mais energia. E todo mundo que está ali acho que gostaria de estar tão perto quanto as rainhas, madrinhas, princesas... O importante não é o cargo, o que está escrito na sua faixa. O importante é estar na bateria. Já fui musa, já fui princesa, já fui rainha... Já tive todos esses cargos e posso te garantir que o cargo não muda muito, o que importa é estar à frente da bateria.





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